Criptomoedas

Escrever uma crónica sobre criptomoedas não é fácil, sobretudo porque o termo é comumente utilizado para designar um conjunto amplo de ativos ou instrumentos digitais que servem como veículos de investimento, arbitragem, mas também de tecnologias que permitem através de bases de dados descentralizadas e partilhadas (a forma mais simples de explicar o que é uma “blockchain”) gerir cadeias de logística, realizar contratos “inteligentes”, criar sistemas de troca e partilha. Esta semana, a terceira maior plataforma de troca de ativos digitais (a expressão que prefiro, já que nenhuma das muitas criptomoedas, nem mesmo a Bitcoin, cumpre os requisitos para ser uma moeda), a FTX, avaliada em 32 mil milhões de dólares, colapsou, arrastando consigo o seu fundador, considerado como um dos mais brilhantes génios financeiros e tecnológicos. Mas será este colapso, como outros neste âmbito, uma inevitabilidade do seu desenho?

Na verdade, como em outros casos, corrupção e abusos de poder parecem ter sido a causa. A FTX usou ativos de clientes (8 mil milhões de dólares) para empréstimos a outra empresa detida pelo seu fundador, Bankman-Fried, usando como garantia os seus próprios tokens digitais, que haviam sido criados do nada. Uma corrida fatal na bolsa expôs o buraco do balanço na plataforma de trading, acelerando o seu colapso. No fundo, seja neste espaço financeiro, seja em exemplos passados (desde a febre das tulipas na Holanda do século XVII até à Bolha dos Mares do Sul na Grã-Bretanha do século XVIII, às crises bancárias da América), encontramos as mesmas grandes personalidades, empréstimos incestuosos e colapsos noturnos.  Como no fim de qualquer mania, a questão agora é se a criptografia pode ser útil para algo além de pura especulação e enganar os menos atentos.

A promessa era de uma tecnologia que pudesse tornar a intermediação financeira mais rápida, barata e eficiente. No meio do atual colapso, vale a pena lembrar o potencial subjacente da tecnologia. O banco convencional requer uma vasta infraestrutura para manter a confiança entre estranhos e isto é geralmente caro e comporta enormes custos de regulação e organização.  Por outro lado, como referimos, as “Blockchains” públicas tornam as transações transparentes e, em teoria, confiáveis. Desde contratos inteligentes autoexecutáveis ​​que garantem o funcionamento conforme escrito até sistemas de tokens, estas ferramentas permitem esquemas e transações que seriam demasiado caras ou impraticáveis ​​de aplicar no mundo real (por exemplo, permitindo que os artistas retenham uma participação nos lucros da revenda das suas obras digitais). A minha opinião é a de que a caixa de pandora foi aberta e a tecnologia tem um potencial enorme, que só agora, depois da tempestade e do colapso, começará a ser verdadeiramente compreendida e utilizada pela maior parte da sociedade.

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