Raciocínio Crítico?

O mundo moderno parece cada vez mais complexo. Entre meias-verdades e pós-verdades, os factos são distorcidos até perderem a sua significância e cada pessoa constrói uma perigosa interpretação da realidade a partir do “feed” da sua rede social preferida, que é curado por um algoritmo visando apenas manter o utilizador online. Se alguma coisa aprendemos com a crise global da pandemia do Covid-19 foi que a humanidade se move cada vez mais a vozes dissonantes, sem capacidade de se unificar em torno de um propósito comum (aquele filme de Hollywood que o leitor viu, em que a humanidade derrota a ameaça extraterrestre ou um cataclismo global unindo esforços é pura ficção, e não é por causa dos extraterrestres, mas porque a humanidade está demasiado polarizada e autocentrada para se unir em torno de alguma coisa).

Algo como uma doença e uma vacina (cientificamente comprovada) foram, em muitos países, campo fértil para batalhas culturais e de valores (sobretudo nos EUA), em que muitos preferiram construir a sua própria verdade, alicerçada em factos errados e opiniões perigosas, originando a morte de milhões de pessoas (felizmente tive a sorte de nascer num mundo em que ninguém colocou em causa que a poliomielite era “uma invenção chinesa” ou que a vacina para essa doença era “perigosa”, pois assim estou vivo e a escrever esta crónica).

É curioso como aqueles que questionam os cientistas quanto a uma vacina, não têm medo de usar o GPS do carro, desenvolvido a partir de investigação originada na teoria da relatividade, ou lavar as mãos para eliminar bactérias, andar de avião ou imaginam, quem sabe, que o seu smartphone funciona à base de magia e não foi alicerçado em pesquisa científica. Se este foi o comportamento face a uma pandemia de curto-prazo, imaginemos então o que será necessário para vencer a emergência climática que vivemos hoje (e onde caíamos por essa mesma inação, ignorância ou pura maldade, por parte dos principais emissores de gases de efeitos de estufa).

Hoje fala-se do racionamento de água em Portugal… para consumo doméstico. No entanto, segundo a FAO 69% do consumo de água é para fins agrícolas (em Portugal é 74%) e cerca de 19% para a indústria (em Portugal 5%) – ou seja, podemos reduzir muito o consumo doméstico, mas se a água agrícola não for “precificada” isso de nada adianta. É verdade que os comportamentos individuais são importantes, não é por um navio cruzeiro produzir mais C02 que 12 mil carros que não devo preocupar-me e procurar alternativas de transporte mais ecológicas (e na verdade existem 315 navios cruzeiro para 1,4 biliões de veículos automóveis), mas por aqui o absoluto e o relativo são inversos, o nosso comportamento individual tem de ter equivalência em políticas económicas e públicas. A seca que vivemos hoje em Portugal e na Europa é apenas o dealbar de um mundo que exige mais pensamento crítico e ação estratégica. Estaremos preparados para isso ou continuaremos às avessas?

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