Pesadelos logísticos

Um sistema que normalmente opera despercebido parece permanecer no caos: estamos a referir-nos ao transporte marítimo.

Durante meses, um turbilhão de atrasos induzido por altíssimas taxas de frete deixou as mercadorias no mar e, um pouco por todo o mundo, algumas prateleiras de lojas vazias.  A pandemia atingiu as operações das empresas de transporte ao longo da cadeia de abastecimento, e a pré-existente escassez de mão-de-obra foi agravada por trabalhadores forçados ao isolamento e pelas medidas de tolerância zero da China, que fecharam terminais portuários.

Mas o impacto mais significativo da pandemia foi o aumento da procura de produtos online por parte de consumidores em situação de isolamento. O valor das mercadorias exportadas da China para os EUA foi 5% maior nos primeiros seis meses de 2021 do que no mesmo período de 2019 (antes da pandemia) e, em setembro e outubro, foi 19% maior do que nos dois anos anteriores. 

O resultado é uma contínua alta das taxas de frete! Na verdade, o apetite voraz dos consumidores americanos por mercadorias, teve um efeito indireto noutros países: a escassez de navios, atraídos pelas altas taxas das rotas trans-pacíficas, elevou o custo dos envios da China para a Europa, aumentando os custos para empresas que dependem de empresas de transporte.

A isto acresceram ainda os significativos atrasos: os portos, não acostumados a um tão alto volume de tráfego, enfrentam longas filas de navios que esperam semanas para descarregar! Por exemplo, existe uma fila de mais de 100 navios à espera de descarregar nos portos de Los Angeles e Long Beach.

Futuros incertos

O alívio desse congestionamento não parece iminente, com a maioria dos especialistas a antever uma baixa probabilidade de melhoria até depois de fevereiro (fim do ano novo chinês). As interrupções podem durar todo o ano de 2022, e apenas em 2023 se sentirá o impacto de (alguns) novos navios no mercado.

A era do frete barato parece ter ficado para trás – transferir mercadorias à volta do mundo tem sido barato porque a resposta às altas taxas tem sido, historicamente, um aumento da oferta de navios. Mas existem alguns sinais de que isso não acontecerá, mesmo que indústria esteja inundada em dinheiro (os lucros podem chegar aos 200 biliões de dólares 2021 e 150 biliões em 2022), já que os pedidos de novos navios não aceleraram (refletindo também uma alteração da indústria em termos de sustentabilidade).

Se, por um lado, isto pode significar boas notícias para empresas nacionais que podem substituir importações, também são más notícias para todas as que não só exportam para fora da UE, mas também para aquelas que necessitam de matérias e componentes vindos da Ásia.

Esperemos então que “ventos” de mudança soprem de forma mais favorável no futuro. 

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